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martes, 28 de mayo de 2013

O desmame no ser humano. Informação e dicas úteis.

Tanto a Organização Mundial da Saude (OMS), quanto a Unicef, assim como a Sociedade Brasileira de Pediatria (e a maioria de Sociedades de Pediatria do mundo), indicam que o aleitamento materno deveria ser exclusivo durante os 6 primeiros meses do bebê, complementado (COMPLEMENTADO: introduzindo outros alimentos para o bebê ir experimentando texturas, sabores, cheiros...), mas ainda alimento principal, até o bebê completar o primeiro ano de vida; e mantido pelo menos até completar o segundo ano. Depois, sem limite de idade estipulado em lugar nenhum, “até que mãe ou filho queiram”.

 
Desde um ponto de vista antropológico, o desmame natural no ser humano acontecería entre os 4 e os 8 anos, segundo diversos estudos científicos que resumo e cito a continuação (Obtido de “A Time to Wean”, Dra. Katherine A. Dettwyler):

Desmame ao alcançar três ou quatro vezes o peso do nascimento. Os resultados indicam que o desmame acontece alguns meses depois de quadriplicar o peso do nascimento, e não ao triplicá-lo (Lee, Majluf e Gordon 1991). Os meninos americanos chegam neste ponto por volta dos 27 meses, e as meninas nos 30.

Desmame ao alcançar um terço do peso adulto. (Charnov e Berrigan, 1993). Os humanos deveriam desmamar, segundo este método, entre os 4 e os 7 anos de aleitamento materno.

Desmame de acordo com o tamanho do corpo adulto. (Harvey e Clutton-Brock, 1985) A equação destes cientistas prediz a idade de desmame humano entre os 2,8 e 3,7 anos.

Desmame em função da duração do período de gestação. (Lawrence 1989). Os humanos nos encontramos entre os primatas maiores, e compartilhamos o 98% de nosso material genético com os chimpancés e os gorilas. Segundo estas comparações, a idade natural de desmame para os humanos seria como mínimo de seis vezes a duração do período gestante. Isto é 4,5 anos.

Desmame em função da erupção dental. De acordo com as pesquisas de Smith (1991), muitos primatas desmamam os filhos quando estes desenvolvem os primeiros molares permanentes. Nos humanos, isto acontece aproximadamente aos 5,5 ou 6 anos. É interessante fazer ver que os humanos alcançam a autonomia imunológica por volta dos 6 anos, o qual permite supor que, ao longo do nosso passado evolutivo, as crianças dispunham de imunidade ativa a través do leite da mãe até essa idade mais ou menos (Frederikson).

Mãe e filho escolhem quando parar

Partindo daqui, das recomendações oficiais, e sendo devidamente demonstrados os benefícios destas recomendações, também é verdade que cada mãe, cada filho, cada contexto são únicos. Amamentação é coisa de dois (com vozes autorizadas, poucas preferivelmente, como a do pai), mas é coisa de dois: mãe + filho. E vai chegar o momento, às vezes antes do “desejável”, outras bem depois, em que um dos dois decida que é hora de acabar com a teta.

Se quem sente que chegou a hora é o filho, o processo costuma ser simples e fácil, pois simplesmente ele vai parar de mamar (se isso acontecer antes do primeiro ano não se considera desmame, senão greve de amamentação, e temos –e diria que até devemos- como recuperá-lo). A mãe, geralmente, sofre bastante. É um duelo em toda regra, o fim de um vínculo único que não vai voltar, mas cujos frutos vão aparecer a vida toda.



Agora, quando é a mãe quem sente que está chegando a hora de parar, a pior parte fica para o bebê ou para a criança, pois é ela quem vai ter que se despedir, provavelmente sem entender por que, de algo que para ela significa não apenas alimento, senão aconchego, conforto, embalo, remédio... AMOR. Claro que tem outras muitas formas de dar amor (ainda bem!), mas nenhuma tão completa em um ato só. E é por isso que, se a nossa decisão é de desmamar mesmo, e se queremos fazê-lo mitigando no máximo possível o sofrimento do nosso filho, vamos ter que multiplicar por muito a nossa presença, o nosso colo, os nossos abraços e todas as formas de amor que o nosso filho demande nesse processo. (Leia também sobre a "agitação da amamentação" que sofrem algumas mães, sofrendo uma forte rejeição quando dão de mamar depois de algum tempo, ou por causa de uma nova gestação, ou ao voltar a menstruar).

Evidentemente deixo claro que eu considero que mais ninguém pode tomar essa decisão pela mãe ou pelo filho. E com ninguém quero dizer: nem pediatras metidos, nem padres de igreja, nem professoras waldorf ou de outras pedagogias, nem familiares na maior pressão, inclusive nem o marido. A teta é da mãe e do filho, e que a mãe queira levar em consideração a opinião do marido, não quer dizer que deva se submeter a ela. Portanto, antes de desmamar, pare para pensar se a decisão é realmente sua, ou se o faz só porque outros acham que é melhor, é hora ou é mais apropriado.

Dicas para facilitar o processo de desmame:

-Nunca desmamar de vez. Melhor ir aos poucos, combinando com a criança de eliminar algumas mamadas do dia. Uma vez estabelecidas menos mamadas, podemos ir retirando outras. Geralmente as noturnas são as mais difíceis, mas delas falamos depois.

-Explicar para a criança o motivo do que está acontecendo. Já que vamos tirar da vida dela uma das coisas mais importantes, o mínimo é lhe dar explicações, né? “Mamãe está cansada”, “Está frio e não quero tirar o tetê da blusa fora de casa”, “Está doendo” (se é o caso, numa nova gestação, por exemplo).

-Ajuda no processo ir combinando com ele substitutos, como, por exemplo: “Agora, fora de casa, mamãe te da suco, e depois chegando em casa você já vai poder mamar”, ou “agora tetê não, mas olha quantos abraços tenho para você!!”.

-Fazendo uso da regra de ouro: “Não oferecer, não negar”, se sabemos que em determinados momentos do dia o nosso filho costuma querer mamar, é melhor nos anteciparmos a esse momento lhe oferecendo alguma outra coisa que ele goste, ou propondo uma brincadeira legal, saindo passear, etc. Lhe distraindo com algo realmente tentador. Se, chegado o momento, ele pede e a distração não funciona, então entrar na batalha do “não”, “sim”, “não”, sim”, com choros e obstinação por ambas partes, não ajuda em nada, e é muito desgastante para os dois. Pega leve!

-Chegado num ponto de "no chance", em que ele insiste "fora do combinado", podemos ceder, por exemplo, contando até um número determinado: "Então ta bom, pode mamar, e mamãe vai contando até 10 -ou 5, ou 50, sei lá- e depois você para, tudo bem?". Pode combinar um tetê só, em lugar dos dois. Em fim, pode ir fazendo combinados que ajudem a facilitar o processo, e à criança entender com que pode contar.

-Quando os nossos filhos estão se divertindo, geralmente eles pedem menos para mamar. O tédio é um grandíssimo amigo do tetê. Criança entediada pede para mamar com muita frequência. Por tanto, outra boa dica é nos esmerarmos estes dias em fazer com que a vida do nosso filho esteja cheia de diversões e atividades. Sair fora de casa (parque, visitar amiguinhos, passear, procurar folhinhas de árvores para fazer um collage, ou pedras para depois pintar...) é sempre uma boa. E maior presença do pai, com certeza também.

-O nosso filho vai sentir falta de uma das maiores fontes de carinho, conforto e aconchego, portanto, multipliquemos outras formas de lhe transmitir isso, dando muito colo, abraços, palavras carinhosas e, principalmente, estando muito presentes para ele: brincando, modelando massinha, passeando, fazendo cócegas, pintando... ESTANDO.

O que acontece de noite?

Como falei antes, as mamadas noturnas costumam ser as mais difíceis de eliminar, por não termos muitas opções de antecipação ou distração.

Antes de dar algumas dicas, acho importante resaltar que, se bem é verdade que as crianças amamentadas costumam acordar mais a noite, o fato de desmamar não garante que isso vá parar de acontecer. Me explico:

1. As crianças não acordam porque são amamentadas. Elas demoram alguns anos em desenvolver os padrões de sono adulto. Leia mais sobre isso: O sono dos nossos filhos e as conseqüências de deixá-los chorar)

2. Mais do que associar “crianças amamentadas” com “acordam mais a noite”, eu associaria: “crianças criadas com respeito” (amamentá-las faz parte disto) com “sabem que se acordam de noite podem chamar, que serão atendidas”. Evidentemente todos conhecemos casos de crianças criadas com mamadeira desde o total respeito. Só estou querendo dizer que costumamos associar “amamentadas” com “acordam mais”, e eu penso que coincide que essas “amamentadas” costumam ser, também, crianças levadas em consideração, que desfrutam da empatia dos pais, que são atendidas no meio da noite... Então o que lhes faz chamar no meio da noite talvez não seja “o tetê”, senão a consciência de que, precisando companhia e aconchego, ela vai ser lhe outorgada. A maior parte das mães que amamentamos sabemos que uma das melhores formas de oferecê-lo no meio da noite é amamentando, então é o que eles aprendem, e é o que pedem. Mas que não acordem “mais que outras crianças” por serem amamentadas, senão por serem levadas em consideração, é o que eu queria defender neste ponto.

3. Portanto, talvez consigamos que parem de pedir tetê no meio da noite, mas provavelmente eles vão continuar acordando pedindo água, presença, etc. Porque, afortunadamente, sabem que seus pais não são dos que lhe abandonam no meio da noite, se ele precisa deles.

4. Dito isso, é verdade que a maioria de casos de crianças que acordavam muitas vezes no meio da noite (e não estou falando de bebês pequenos, por favor, que precisam ser alimentados também de noite), melhora bastante com o desmame noturno, passando a acordar menos, e às vezes até a parar de acordar. Mas nada garante isso, também tem casos em que tudo segue igual,mesmo número de despertares, e a gente sem a melhor ferramenta para adormecê-los de novo! Pensem que as crianças que passam a maior parte do dia longe da mãe, praticamente só tem a noite para recuperar o tempo perdido e ficar pertinho dela. Nesse caso, eles pedem aquilo do que estão carentes: da presença da mãe.

5. Cama compartihada pode ajudar nestes casos, às vezes porque só de ter a mamãe do lado, a criança dorme mais sossegada. Outras porque, já que o filho vai acordar mil vezes, pelo menos que a mãe se evite passeios noturnos, o que lhe desvela e cansa ainda mais.

Dicas para o processo de desmame noturno:

-Escolhamos um momento em que tudo esteja tranquilo, sem grandes mudanças internas ou externas. Que não seja começo de escolinha, nem se recuperando de uma doença, ou coincidindo com mudança de casa ou chegada de irmãozinho. Que não coincida com um salto de desenvolvimento (aprendendo engatinhar, caminhar, desfralde...). E lembrem-se que por volta dos 2 anos as crianças passam por uma fase de muito apego, pois estão se “desvinculando” da mãe para começar ser uma pessoa Independiente. Isso lhes gera muita angustia, e geralmente antes de dar esse passo à independência, eles se grudam muito na mãe (e se mamam no peito demandam quase como recém nascidos), para sentir que ela está aí de porto seguro, que ele pode dar esse passo porque ela vai estar aí, sim. Então, se ele estiver nesse momento, melhor esperar também um pouquinho, pois forçando um desmame nesta fase só conseguiríamos lhe fazer sentir mais inseguro (“Mamãe já não está para mim da forma em que eu preciso dela?”).

-Conversemos com ele, lhe explicando os combinados que a gente quiser fazer, por exemplo: “Se você acordar de noite pode me chamar que eu vou ir com você para te dar aguinha e ficar do seu lado, mas o tetê vai dormir de noite, tudo bem?”. Que não lhe pegue de surpresa. Tudo bem explicadinho para ele entender o processo.

-Entender o processo não significa aceitá-lo. E nem mesmo aceitá-lo significa que seja facil. Provavelmente vai ser difícil, muito difícil para ele, mesmo tendo entendido e aceitado. Vamos ser compreensivos, ta? É uma grande renuncia, um imenso esforço que ele vai ter que fazer. Empatia, colo, carinho e não pensar que “está nos manipulando, porque tinha entendido o combinado perfeitamente, mas quando chega a hora sabe que chorando eu cedo”.

-Escolhamos um feriado, ou dias em que o pai possa ajudar. Com ajuda dele costuma ser mais fácil. Crianças com mães que por força devem passar algumas noites fora (enfermeiras, doulas, acadêmicas que viajam...) costumam aceitar bem que seja o pai quem lhes embale. Sabem que é ele ou ele, e ao mesmo tempo o pai se sente confiante, pois depende dele, então vai seguro de si. Tudo isso é importante.

-Substituam, como no desmame diurno, as mamadas por muito amor, carinho, colo, presença, agua... Que eles não sintam que estão perdendo carinho, senão substituindo uma forma de oferecê-lo por outras alternativas.

Tudo isso, como vocês vêm, requer de esforço, se o fazemos desde o respeito à criança. Portanto pensem que TUDO, SEMPRE, tem possibilidade de volta atrás. Sem deixar a criança louca indo e voltando permanentemente, é claro. Mas se a escolha não está compensando, se você está ficando mais cansada que antes, se o seu filho está sofrendo demais. Pelo motivo que for, se não compensa, se não sai como esperava, sempre pode voltar atrás. Isso também vai ser um bom exemplo para os nossos filhos: “Você sempre pode tentar filho, que se não der certo tem via livre para voltar atrás e tentar de novo em outra ocasião ou por outro caminho”. Melhor tentar e comprovar que não é o que queremos, que não tentar por medo, ou que tentar e ver que não é o que queremos mesmo, mas seguir insistindo “porque não podemos voltar atrás”, não acham?

Texto de Elena de Regoyos para MamaÉ
Proibida a reprodução sem autorização
 
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lunes, 20 de mayo de 2013

Usos desaconselhados e potencialmente perigosos do sling ou porta-bebê

Foto: mamaememima (Não é de uso livre)
Por Elena de Regoyos, jornalista, doula, assessora de amamentação, proprietaria de www.mamaememima.com e co-criadora da formação Bebê no Pano.
Por favor, cite fonte e link original para compartilhar.


Os portabebês ergonômicos são uma magnífica ferramenta para podermos continuar com os nossos afazeres e atividades diários, sem deixar de oferecer ao nosso bebê aquilo do que ele mais precisa
: o nosso calor corporal, o nosso cheiro de mãe, o contato com a nossa pele, a proximidade com o peito para se alimentar, a nossa voz, o nosso embalo, os nossos batimentos cardíacos... Tudo aquilo com o que ele já estava acostumado desde os tempos do útero. Todo aquilo que lhe faz sentir seguro, cuidado e feliz.

Os benefícios do babywearing são muitos, mas devemos prestar atenção à forma em que fazemos uso deste lindo recurso, pois não é de qualquer forma que seria aconselhado carregar os bebês ou crianças dentro deles.


COMO INDICAMOS CARREGAR UM BEBÊ OU CRIANÇA?



A posição que indicamos para carregarmos um bebê ou criança desde o mesmo dia em que nasce (até prematuros) é a chamada “posição de sapinho” (ou fisiolôgica, com o bebê em agrupamento, lembrando a posiçõ fetal, verticalmente), que é a posição do método mãe canguru. Nessa posição, as pernas dele ficam flexionadas como se ele estivesse acocorado, é a posição fetal, que iremos respeitar sem forçar em absoluto abertura de pernas. Os joelhos ficam mais altos que o bumbum, aproximadamente à altura do umbigo dele, e as pernas ficam formando um “M” junto com o bumbum (canelinnha-bumbum-canelinha). A bacia é basculada para a frente.


Nessa posição, a coluna se curva naturalmente em forma de “C”, o que a protege de esforços que a musculatura deles ainda não podem exercer. Ao longo do primeiro ano de vida vai ir se formando a curva ou lordose cervical na coluna deles, e depois, até os 7 anos, firmando a posição bípede, se formará a curva ou lordose lombar.

O tecido deve segurar o bebê desde atrás de um joelho até atrás do outro joelho (as duas coxas e o bumbum inteiros!), como quando nós mesmos sentamos em uma rede, e deve também estar suficientemente tensionado em todos os pontos, se adequando à forma do bebê, para garantir uma sujeição adequada e firme, sem forçar. O portabebê deve manter a criança bem próxima da gente, nos permitindo deixar de segurá-la com os braços porque o proprio portabebê o segura na altura (que a gente possa dar um beijo na testa deles só abaixando o nosso rosto) e com a firmeza que os nossos próprios braços o fariam. Sem ficar frouxo nem baixo.

Uma posição alternativa para carregá-los (principalmente para amamentá-los no sling, voltando depois à posição de sapinho) é a posição semi-sentados. Não é horizontal, senão que o portabebê segura eles lateralmente, sentados com as canelinhas também livres (o tecido vai desde atrás dos joelhos até a cabeça).

Formas de carregar que que não indicamos

1. BEBÊ DEITADO NO PORTABEBÊ














-O maior perigo desta posição é pelo risco de sufoco: No sling devemos verificar sempre que o queixo do bebê esteja separado do peito dele (cabeça “erguida”), para as vias respiratórias, a traquéia, permanecer sempre aberta. Isso piora quando o bebê é carregado deitado, horizontal, em slings de argolas ou pouchs dobrados ao meio, fazendo algo assim como um “envelope” que envolve o bebê, o que resulta duplamente perigoso por cobrir o rosto dele com o tecido. O bebê fica lá dentro numa posição potencialmente perigosa e coberto por tecido.

-Resulta, também, desconfortável para o adulto, pois nessa posição o bebê geralmente fica baixo com respeito ao nosso centro de gravidade e não está “encaixado” na nossa fisiologia, como acontece nas posições ergonômicas, o que nos faz curvar a coluna para compensar, gerando dor.

-Deitado, horizontal, ele não exercita mínimamente a musculatura cervical, e pode ter também maiores problemas de refluxo ou falta de eliminações de gases, o que é favorecido na posição vertical.

Veja como passar da posição fisiolôgica vertical à posição de amamentar, em um sling de argolas, com recém nascido real:



Passar a posição de amamentar na cruz envolvente com um wrap tecido:



Amarração canguru na frente com wrap tecido, posição para amamentar:




2. BEBÊ OLHANDO PARA A FRENTE




-Olhando para a frente o bebê ou criança fica sobre-exposto, sem nenhum tipo de filtro, sem olho no olho com a gente, a todos os estímulos do ambiente, que nas sociedades em que geralmente vivemos não são precisamente escassos, podendo resultar altamente estressante. Ele não tem como dizer “chega”, apoiando o rosto no nosso colo, olhando nos nossos olhos ou dando um cochilo. Inclusive, se ele adormece olhando para a frente fica com a cabeça pendurada para a frente, sem apoio.

-É impossível carregar um bebê ou criança na posição adequada de agrupamento, se o levamos olhando para a frente, portanto ele vai ir ou totalmente esticado verticalmente (veja a informação sobre este ponto depois) ou na posiçõ "de Buda" (também pode ver considerações sobre ela depois), o que não lhe beneficia em absoluto, ao nosso entender.

A alternativa para carregar eles com uma maior visão do mundo seria fazê-lo no quadril, o que lhes permite ver o mundo sem perder a posiçõ adequada e nem a referência do nosso colo para apoiar o rostinho ou dar uma soneca; ou com uma amarração alta nas costas:






3. BEBÊ NA POSIÇÃO DE BUDA



-Frequentemente vemos indicações desta posição para poder atender a demanda social de carregar o bebê olhando para a frente.

Posição “de sapinho” não é igual a “posição de Buda”, e nem tanto faz.

Na posição de sapinho o bebê está sentado no tecido, com o peso no bumbum, e deixa as pernas com livre movimentação, sem exercer nenhuma pressão em nenhuma das articulações do seu corpo. Enquanto que na posição de Buda já estamos forçando a flexão e tensão das pernas. Uma flexão, por outro lado, que nada tem a ver com a de sapinho.

Na posição de sapinho as coxas estão flexionadas para cima e levemente separadas, deixando os joelhos alinhados à altura do umbigo. É como se o bebê estivesse acocorado. É a posição natural dos recém nascidos, as pernas se flexionam da forma em que o fazem naturalmente sem intervenção nenhuma (quando, por exemplo, deitamos barriga para cima o bebê para trocar a fralda). Na posição de Buda as coxas estão abertas “em borboleta”, horizontalmente, forçando uma posição que não tem nada de natural, e com o pano do sling exercendo pressão nas articulações.

No útero o bebê estava assim. No útero o bebê estava em um meio líquido. Esse argumento não serve. A força da gravidade era quase anulada por este motivo. o impacto nas articulações dele era outro. O bebê não é mais um feto, é um bebê em um grau de desenvolvimento mais avançado ao que tinha quando dentro do útero.

-Carregar o nosso bebê olhando para frente nesta posição o afasta muito do nosso centro de gravidade (ele fica curvado para frente, não se encaixando em absoluto no nosso corpo), nos obrigando a compensar aposição curvando a nossa coluna para trás, gerando dor de costas.

-Pela posição curvada para frente, o bebê corre risco de cair para a frente “fazendo uma cambalhota”, pois ele não está encaixado no nosso corpo, bem assentado nele.

4. BEBÊ VERTICAL, COLUNA E PERNAS ESTICADAS


A esquerda, posiçãoa dequada "de sapinho"; à direita bebê esticado, pendurado pelos genitais
Tanto olhando para a frente quanto olhando para nós, devemos prestar atenção sempre para o bebê não ficar com as pernas esticadas para a abaixo verticalmente.

Se carregamos o bebê de forma vertical com as pernas esticadas, da mesma forma em que os cangurus não ergonômicos o fazem, e da forma em que muitas pessoas colocam o wrap (por falta de cuidado na posição adequada de sapinho ou por desinformação), estamos segurando todo o peso do bebê ou criança pela área genital dele. Se é menino é mais desconfortável, mas meninas também o sentem, pois é o peso inteiro deles carregado nessa área (onde você preferiria ficar por uma hora, sentado numa rede ou pendurado num arnês de tirolesa?). Além do desconforto, tem questões de saúde muito mais importantes:

-Carregando pela área genital podemos dificultar a circulação sanguínea nas virilhas, onde passam as principais veias e artérias que irrigam as extremidades inferiores.

-Ao deixarmos as pernas esticadas para abaixo fazemos com que a cabeça do fêmur se desloque para abaixo na articulação do quadril, uma articulação ainda em formação que requer de uma flexão quase permanente das coxas: daí que os recém nascidos estejam naturalmente sempre com as coxas flexionadas, retraídas, para a cabeça do fêmur encaixar perfeitamente no quadril, ajudando a formação adequada da articulação e evitando lesões futuras, ver referência ao final deste artigo ao Instituto Internacional de Displasia de Quadril.

-Com as pernas esticadas, a coluna do bebê automáticamente também se estica, fica “reta”, em lugar de curvada em forma de “C”, como é a posição natural da coluna de um recém nascido. Como a musculatura das costas dele ainda não está fortalecida, ele não tem capacidade de se manter reto, portanto poderia sofrer compressão de vértebras.

 


Quanto menor seja o bebê, mais fechadinhos estão os joelhos, e progressivamente irão se abrindo até ficar numa apertura entre eles de uns 90º, abraçando cada vez melhor o nosso contorno. Nunca forçaremos a apertura das pernas deles, deixando, pois, os recém nascidos mais “bundudinhos” dentro do sling, até que eles consigam ir abraçando a nossa cintura com as pernas.

Veja como conseguir um bom posicionamento:





REFERENCIAS:

-Artigo do Instituto Internacional de Displasia de Quadril (IHDI) sobre slings ou portabebês em relação à Displasia de Quadril em bebês e crianças: Hip Health in baby carriers, car seats, swings, walkers, and other equipment

-Declarações de Presidente da Federação Alemã de Pediatria sobre a importância da posição de sapinho à hora de carregar um bebê no sling, e da inconveniência de carregar eles olhando para frente: Babys nicht mit dem Gesicht nach vorn tragen

Artigo de Elena de Regoyos para MamaÉ
Proibida a reprodução sem autorização

Mais informação sobre portabebês:

lunes, 13 de mayo de 2013

Bebês e crianças permanentemente en crise? (Saltos e picos de crescimento)

Estou muito angustiada. Até hoje sabia que tinha saltos e picos de crescimento no(s) primeiro(s) ano(s) dos bebês, e muitas vezes, vendo crescer os meus filhos, quando sentia fases de maior demanda (física e emocional) eu pensava "deve ser uma fase de crescimento ou desenvolvimento maior, ou talvez ele estaja ficando resfriadinho", e mais ou menos me contentava com a explicação, mesmo não adiantando muito saber a causa, senão mais bem agindo em consequencia.


Image courtesy of Phaitoon at FreeDigitalPhotos.net

Mas agora que vi em um artigo quando e quanto duram supostamente cada um destes picos e saltos de desenvolvimento, só me coube a tensão e o stress no corpo e a alma. Se com esse artigo pretendiam ajudar as mães, para mim que lhes podem estar produzindo o efeito contrário. Pelo menos comigo teria acontecido se não fosse eu tão desencanada como costumo ser.

Como uma mãe vai ficar tranquila se antes sequer de ter a oportunidade de viver a experiência de ser mãe já sabe que vai ter as seguintes "crises", com seus respectivos e arduos efeitos colaterais (falta e difficuldade de sono, choros desconsolados, maior demanda de teta, etc)? Isso é botar muitas espectativas (ruins, aliás) no que elas podem esperar nos primeiros anos de vida do filho! Vejam:

Saltos de desenvolvimento (momentos de maduração evolutiva da criança):

-5 semanas (1 mês).
-8 semanas (quase 2 meses).
-12 semanas (quase 3 meses).
-19 semanas (4 meses e meio).
-26 semanas (6 meses).
-30 semanas (7 meses).
-37 semanas (8 meses e meio).
-46 semanas (quase 11 meses).
-55 semanas (quase 13 meses).
-64 semanas (quase 15 meses).
-75 semanas (17 meses).

Picos de crescimento (crescimento físico do bebê):

-7-10 dias.
-2-3 semanas.
-4-6 semanas.
-3 meses.
-4 meses.
-6 meses.
-9 meses e além.

Bebês em crise permanente

Pelamordedeus! Se no artigo já dizem que cada salto de desenvolvimento pode durar semanas, e que os picos já duram menos ("só" alguns dias), e pensando com a lógica de que cada criança é única e os saltos e picos não tem por que acontecer cronológicamente em ponto (alguns nascem na semana 38, outros na 40 ou 42... suponho eu que nos saltos e bicos também temos, como mínimo, esse margem de erro), isso quer dizer que o nosso filho pode viver permanente em crise?

Se a isso adicionamos a saida de dentes (que não são poucos!), que pode acontecer em idades tão diversas segundo a criança... Como sobreviver à maternidade?

Gente, sejamos realistas. Bebês e crianças (assim como adolescentes, jovens, adultos e velhos) não são robôs, não são lineares e nem são predecíveis. Cada um deles mora numa casa diferente, com rotinas diferentes, em contextos diferentes e com pais vindos de famílias diferentes. Sem contar que eles mesmos já são 100% pessoas únicas e diferentes entre sí. Temos possíveis dores de barriga ou resfriados, saidas de dentes, reações a vacinas, crianças com demanda maior de presença e contato, outras que exigem muito alimento e as que dormem naturalmente pouco e muito picado. Eles podem se encaixar na dita tabela, ou não ter nada a ver!

O que eu acho errado destas tabeles não é o excesso de picos ou saltos, senão o fato delas nos transmitirem a sensação de que estes tiram o ánimo do bebê "do normal". Segundo eu o entendo, por contra, não apenas "o normal", senão também o desejavel, o adequado, o saudavel e o BOM, é que os bebês e as crianças vivam os seus primeiros meses e anos em quase permamente estado de crescimento e desenvolvimento.

Da mesma forma que não compartilho a opinião de quem pensa que práticamente toda criança tem um transtorno mental pelo mero fato de se comportar como uma criança, também não compoartilho a opinião de quem acha que os bebês estão passando por uma fase "de crise" quando simplesmente estão sendo bebês.

Agora, você quer olhar a tabela e usá-la como guia para localizar em que momento está o seu filho? Isso te alivia e ajuda? Então bemvinda ela seja, mas por favor, não se esqueça de olhar o seu filho como a pessoa única que ele é, e dentro do contexto único em que ele vive. Daí vão surgir as respostas em muita maior medida do que nesta tabela "universal", pois nada menos "universal" e tabelado do que os ritmos de crescimento das crianças.

A causa frente a ação, o que ajuda mais?

E para terminar, levanto uma outra questão que vem ao caso. Sei e comprendo que nós, seres humanos, temos uma tendência innata na busca dos "porques", sei e comprendo que procurar e entender as causas de um fato determinado nos acalma e nos ajuda a resolvê-lo. Mas no caso de bebês e crianças, admitamos que é tão, mas tão dificil localizar as verdadeiras causas (eles não falam nem explicam o que lhes acontece, né?), que é mais uma questão de fé.

Neste contexto, não será melhor ficarmos simplesmente no "agir", em lugar de encanar tanto nas causaso, nos "porques"? Para mim funciona assim:

-"Do que ele precisa?"
-"Até onde eu posso lhe ajudar nesse sentido?"

Ponto. Não adianta muito questionar se essa demanda dele é "legítima" ou não:

-"Não deveria ter sono agora!"
-"É normal que ele sinta fome ainda?"
-"Será que é manha?"

E nem adianta tanto procurar as causas:

-"Por que ele derrepente quer ficar pendurado no peito o dia todo?"
-"O que está lhe acontecendo para acordar tantas vezes de noite?"
-"O que estará fazendo ele chorar desse jeito por todo?"

O que a mim, na minha experiência, me deixa mais tranquila, menos frustrada, e realmente garantindo melhores resultados é a confiança ("se ele chora, demanda ou acorda será por algum motivo, mesmo sem eu saber qual") e a aceitação ("ele realmente está precisando de mim nesta fase"). E me deixem de tabelinhas, porque vou lhes dizer, tenho três filhos, e eles são tão, mas tão diferentes entre si que seria impossivel eu entender as tabelinhas seguindo os ritmos de desenvolvimento e crescimento de cada um deles. Nada a ver!

Elena de Regoyos para MamaÉ
Proibida a reprodução sem autorização

lunes, 15 de abril de 2013

O "enxoval consciente" é intangivel e parte do coração

Quem já foi mãe sabe o quão inúteis são às vezes muitos dos componentes do enxoval de bebê -que quando os adquirimos ou ganhamos tinhamos considerado indispensáveis-, assim como brinquedinhos, sabonetes, perfumes ou enfeites. Nem falar em chupetas, mamadeiras e outros utensílios que muitas de nós não pensamos utilizar e que a priori em nada beneficiam ao vínculo entre mãe e bebê.

Gestar, parir e receber um filho é um acontecimento único, e como tal gostamos de presentear a mãe e o bebê com algum objeto ou lembrança especial que honre o que está acontecendo entre eles dois. Mas é dificil escolher. Presenteamos com carinho, queremos oferecer algo que seja prático e ao mesmo tempo lhes transmita o nosso carinho. A propaganda de utensílios para mãe e/ou bebê é tão vasta que nos perdemos entre tantas possibilidades, tantas necessidades deste "novo casal" (nesta caso "casal" = "mãe" + "bebê").

Do que realmente precisa uma mãe

Para mim o principal, do que mais eles precisam, é de apoio, de intimidade e de tempo para eles dois (mãe + filho), e para eles três (mãe + filho + pai), para gerar vínculo, pois o principal, o realmente fundamental, eles já tem: colo e peito para nutrir física e emocionalmente o bebê no periodo da exterogestação.

Podemos presentear com tempo de várias formas:

-Cozinhando para a nova mãe, ou pagando para eles algun dia de "cozinha a domicílio" (tem pessoas que vão na sua casa e cozinham saudavel para você, deixando todo recolhido depois!). Se juntando vários amigos do casal, podem lhes dar uns bons dias de "livre de cozinhar".

-Mesma coisa com a limpeza da casa ou faxina. Não parece o presente mais "bonito", mas garanto que se o casal não tem quem faça isso por eles, vão agradecer.

-Ajudando com o filho mais velho, se é o caso.

"Chá de parto"

Uma amiga recebeu, como presente de nascimento da terceira filha, um "parto em casa". Isso mesmo. Eles queriam parir em casa, mas não tinham como pagá-lo. Então família e amigos fizeram uma vaquinha para lhes dar, sem dúvida, o melhor e mais especial presente que essa família podia ter desejado. Pariram em casa lindamente, com as duas filhas mais velhas "doulando" a mãe. Eles não queriam berço (não usavam, iriam compartilhar cama com a bebê); nem carrinho, pois morando em um 4º andar sem elevador, o mais prático mesmo iria ser o wrap sling que tinham ganhado do grupo de mães que frequentavam. Roupinhas iriam herdar das irmãs mais velhas quase tudo... De pouco mais a bebê ia precisar, tendo à mãe perto e disponivel para carregá-la e nutrí-la física e emocionalmente. O presente do parto foi, sem dúvida, o mais acertado.

Que tal, então, fazer um "chá de parto" em lugar do tradicional "chá de fraldas"? Principalmente porque também tem cada vez mais casais voltando às fraldas de pano ;)

Que tal uma doula?

Ilustração da Anne Pires
Em alguns casos vem mães querendo comprar um sling para uma amiga grávida, mas não sabem qual ela irá preferir. O que recomendo, nesses casos, é fazermos um voucher pelo sling que ela escolher, ou melhor ainda: voucher de uma oficina de babywearing. Daí a mãe se informa, experimenta e vê se ela quer praticar esse contato com o filhote e de que forma prefere fazê-lo. Frequentemente estas mães acabam entrando também em outras questões relativas à amamentação, cuidados e sono do bebê, sentimentos dela como mãe e dúvidas da criação em geral.

O que me leva a pensar que outro belo presente seria "uma doula". Tanto para o parto quanto para o puerperio, o apoio e a presença de uma doula, acompanhando e informando esse casal, pode fazer uma grande differença na vivencia de pater-maternidade da nova família.

A doula ajuda ao casal se empoderar, a acreditar no poder da mulher para gerar, gestar, parir e criar o filho quando social ou culturalmente pode haver dúvidas ao respeito. Oferece informações reais sobre o periodo de gestação, parto e puerperio. Lhes mostra caminhos para eles se conectarem com que eles são e querem ser como pais, fazendo assim com que escolham o proprio caminho de forma consciente. Ajuda o pai a achar, desempenhar e valorizar o importantissimo papel dele como "apoiador" principal da mulher e da família em um período em que ela vai estar quase 100% voltada para o filho.

No parto, a doula pode acariciar, masageiar, olhar, molhar, alimentar, limpar, rezar, cantar e servir às necessidades que a mãe tenha. Ao mesmo tempo, oferece ao pai as indicações que ele precise para ser o suporte principal da mulher nesse momento. Vela pelos desejos do casal nessa hora, deixando eles se concentrarem no momento único e sagrado em que estão.

Depois, durante o puerperio, ajuda na amamentação e nos cuidados com o bebê. Se mostra receptiva às dúvidas ou difficuldades da mãe ou do casal com o novo serzinho, e de novo lhes oferece informação real, sem interferir no vínculo entre eles nem julgar os pais.

Acolhe à mãe neste periodo intenso emocionalmente que é o puerperio. Continua acariciando, abraçando, olhando e servindo às necessidades da mãe, que por sua vez atende às do bebê. Lhes ajuda a mergulhar nas necessidades, vontades e desejos deles como pais, sempre desde o respeito à criança, para assim eles caminharem conscientes por este longo caminho que é ser pais, acertando e errando naturalmente. Aprendendo sem se sentirem julgados.

Escolha o seu presente desde o coração

Presenteando com "um parto", com "uma doula", com um curso ou oficina (de shantala, de babywearing, de amamentação, de puerpêrio...)... Você estará dando um presente intangivel, que não se pendura na parede nem se vê nas fotos do enxoval do bebê, mas que perdudará a vida toda no coração dos pais e, sem dúvida alguma, também do filho.

Elena de Regoyos para MamaÉ
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domingo, 7 de abril de 2013

Abraços de pano, embalos eletrônicos e peitos de plástico para bebês... de pelúcia?

Mas uma da série "vamos inventar o que já existe, para as mãezinhas continuarem consumindo".


Vi hoje esta ternissima imagem do bebê abraçado por uns braços+mãos de mentira, com este texto: "Almofada para os bebês se sentirem protegidos como se estivessem nos braços das mamães!". E eu me pergunto... Tão difícil é obviarmos o "como se estivessem" e, diretamente, pegá-los no colo? Vou lhes contar um segredo: isso é o que verdadeiramente lhes faz se sentirem protegidos, a mãe atrás dos braços. Braços sem mãe... é que nem caroço sem cereja.

De verdade você pensa que um bebê (mais ainda um recém nascido!) vai se importar se a almofada tem forma de mãos, de minhoca ou de borboleta? Você acredita que ele olha a almofadinha e percebe isso? Não tem a sensação de que, mesmo a almofada tendo forma de braços de mãe (e olha, de mãe gigante!), ele poderia sentir a falta do calor do colo da mãe real, do cheiro único da pessoa misturado com o do leite materno, dos batimentos cardíacos que lhe acompanham quando ela o abraça, da voz que lhe nina? Tão pouco esperamos do nosso filho? Que não nos reconheça e se conforme com uns braços de pano? Que acredite que essa almofada, cuja forma de braços ele nem percebe, vai lhe proteger, amar e criar como a mãe de verdade? De verdade você acredita nisso, ou simplesmente acha a almofada bonitinha e por isso gostaria ter uma igual?

Mas não é a primeira tentativa, nem de longe, de algum empresario expertinho tentar se lucrar inventando coisas que a natureza já proveu, se aproveitando da loucura consumista que se apodera de quase toda gestante e mãe.

Poderiamos começar pelo velhissimo e super bem sucedido invento -"O" invento- dentro desta categoria: a chupeta, que não é mais do que uma mera imitação do peito de uma mãe, para satisfazer a sucção não nutritiva (e lamentavelmente às vezes também a nutritiva).

Mamadeiras com bico cada vez mais parecido ao seio materno, cadeirinhas que vibram para substituir o embalo da mãe, saquinho de sementes para substituir o calor que o nosso proprio corpo lhes proporciona se os carregamos no colo, brinquedos com musiquinha para dormir em lugar de uma mãe que o nine com músicas de sempre...

E nós compramos, compramos, compramos... "Como não comprar isso que imita tão bem o que eu lhe dou? Com certeza será o mais apropriado!". Por que pensamos sempre que o fabricado é melhor que o que já existe na natureza? Por que o leite de fórmula poderia ser melhor que o que nós mesmas produzimos? Por que o brinquedo de luzes e sons resulta mais prometedor que uma mãe cantando e tocando? Como uma cadeirinha que vibra vai relaxar mais o bebê que um pai passeando com ele no colo?

De verdade vocês acham fofo o seu filho ser abraçado por uns braços gigantes de pano, podendo lhe abraçar você mesmo? Prefere que ele sugue um pedaço de silicone, em lugar de se aconchegar no seu peito? Prefere que a TV se ocupe de lhes divertir às tardes em lugar de sair procurar formigas ou pedras na rua juntos?

De verdade queria um filho? Bonecos são mais baratos, e não choram nem te solicitam no meio da noite! Em que mundo vivemos?

(Conste que não contra a chupeta, as cadeirinhas vibrantes, a TV, os brinquedos luminosos ou os saquinhos de sementes "porque sim", pois já usei ou uso alguns deles com meus filhos, mas sou contra, sim, de um uso continuado deles como substitutos de nós mesmos, e também de um uso deles sem sequer ter parado para reflexionar sobre o que eles realmente significam e o papel que eles jogam na crianção dos nossos filhos).

Texto de Elena de Regoyos para MamaÉ
Proibida a reprodução sem autorização

viernes, 5 de abril de 2013

Chega! (Claro que) não somos perfeitas, ué!

Sou mãe e sou doula. Me considero uma boa mãe, e também uma boa doula. Eu fujo da pretensão de perfeição. Porque... o que é "perfeição"? Provavelmente para você faz parte dela o fato de ser uma mãe que mantém os filhos sempre limpos, e para outra pessoa é ao contrário, aquela mãe que deixa os filhos mais lambuçadinhos. É só um exemplo sem importáncia. Para mim é ótima uma mãe que se respeita a si mesma e que respeita os filhos, tentando fazer o seu melhor, se informando e se esforçando, e que não sempre o consegue. Uma mãe que aprende também disso, e que faz com que os filhos também saibam errar e se perdoem quando isso aconteça, para poder seguir em frente.

Faz tempo uma "conhecida íntima" me disse que tinha ficado decepcionada comigo quando viu -em pessoa- que eu não era uma mãe perfeita. Peraí... Você achava que eu era isso? Mas de verdade você achava que alguém é "isso"? Como diz minha admirada Ana Cristina Duarte, "nem eu, que sou perfeita, sou perfeita".

Meus textos sobre maternidade não falam do que eu sou. Falam das coisas nas que eu acredito, falam das coisas às que eu aspiro ser na maior medida possível. Mas é obvio que não respondo às minhas espectativas como mãe o 100% das vezes, nem de longe! E é claro também que muitas, mas muitas vezes, não respondo as espectativas que os meus proprios filhos tem de mim. Imaginem só se eu tivesse, também, que responder as espectativas que cada mãe tem de mim, só porque "sou doula"!

Não gente, eu também perco a paciência -dependendo de fases, até demais-, porque eu também tenho dias ou fases em que meus filhos me deixam exausta, porque eu também tenho conflitos entre o que eu quero e preciso, e o que eles querem e precisam de mim... Porque eu também sou mãe e sou humana, como eles. Como você.

Conheci uma doula que não levava as filhas dela nos encontros com outras mães para não se mostrar "sem paciência" com elas na frente das outras, que esperavam dela um outro nível de evolução como mãe. Fala sério, e agora me expresso como doula de puerpêrio... Como vamos transmitir às mães que recurrem a nós que não devem se exigir tanto, que não podem aspirar à perfeição nem pretender ser a mãe que os outros esperam que ela seja, senão aquela que ela pode e deseja ser, se nem nós mesmas, as doulas que lhes dizemos isso, nos comportamos assim?

Preciso transmitir à mãe que perder a paciência com o filho e falar com ele bruscamente faz parte disto às vezes, ao igual que se desculpar depois nos mostrando humanas, que não aguentar mais ser mãe em determinados momentos é normal... Mas eu devo me mostrar "perfeita" e "evoluida", sem falar nunca uma palavra mais alta que a outra para o meu filho na frente dela, para ela pensar que pode confiar no que lhe digo, pois eu já alcancei esse nível superior como mãe, que nem fala palavrão nem aumenta o volume da voz nunca?

Eu já caí nessa

Me lembro muito bem de como eu cheguei a ter sérias dúvidas durante a minha gestação sobre se a Ana Cristina Duarte seria a minha parteira ideal. Como expliquei no meu relato de parto, eu queria e desejava uma parteira "mãe, mística, amorosa e sobrenatural", como pareciam ser as dos relatos de parto de muitas mulheres que eu lia. E Ana Cristina Duarte é uma mulher que fala alto e claro, à qual nunca imaginaria com um halo de luz etérea ao redor, como acontece com outras parteiras ou doulas que conheço. Agora, ela é uma parteira 100% humanizada, que acredita no que faz e fala do que acredita. Ela é direta, é firme, é segura, é sarcástica... E também me demonstrou -me dando uma lição de humildade- que podia, além de tudo isso, ser acolhedora, carinhosa, maternal, empática e entregue. Que ela não dance pelada com flores na cabeça e tomando chá de hervas místicas à luz da lua cheia (*) não quer dizer que seja menos parteira, menos acolhedora nem menos humanizada. Cuidado com as nossas espectativas, e cuidado com as imagens preconcebidas!

(* : Ou talvez ela dance, sim? As coisas geralmente nunca são o que parecem ser. Na verdade acredito que ela amaria fazer isso, e até já deve ter feito, rodeada de boas amigas, porque com certeza deve ser muito divertido)

A minha imagem atual de perfil do facebook
Várias pessoas próximas vem me dizendo um dia ou outro que que eu não deveria postar certas coisas no facebook porque dão uma imagem de mim não apropriada à minha profissão. Que não fale palavrão, que não me mostre irritada e nem coloque imagens "grossas", como aquela vez que postei as mil formas de denominar "buceta" em português (achei curiosissimo pois, como falei nesse post, eu nunca tive nome para essa parte do corpo, o que genera um grande conflito em mim, e sobre como denominá-lo com os meus filhos). Que tudo isso não bate com a minha imagem de perfil (presente da linda Anne Pires).

Respondo de minha profissionalidade, não da imagem que deveria dar

Eu sou como sou. E uma das minhas caraterísticas mais claras é a transparência. Sou um livro aberto. Se estou chateada, você vai saber; se estou decepcionada, vai ser evidente; se estou alegre, com certeza ninguém vai ter dúvidas. Se um virus entra no meu computador e quer roubar as minhas claves, provavelmente vou falar palavrão e vai me irritar que alguém me interrompa, mesmo meus filhos aos que tanto amo e me dedico.

Não tenho intenção de me vender como o que não sou "para captar atendimentos". Você quer uma doula com sorriso angelical e olhar transparente? Eu te digo que existem, as conheço, aprecio e admiro, e são tão boas ou tão ruins quanto eu. A escolha é sua, por sorte! Mas não fique esperando de mim que por ser doula me transforme automáticamente em um ser místico e etéreo, porque nem isso é garantia de nada mas que de, talvez, "o sorriso angelical e o olhar transparente". O resto vai com as qualidades de cada uma.

Que eu tenha capacidade de entender o que uma mãe está vivenciando, empatizar com as difficuldades dela, ajudá-la a superá-las, escutar ativamente o que ela me conta e lhe dar respostas informadas e satisfatórias...

Que eu possa conseguir que ela se escute a si mesma e saber o que de verdade está sentindo e que assim logre adivinhar do que está precisando...

Que eu consiga que essa mãe se empodere como tal, que confie nela mesma e decida conscientemente sobre a maternidade segundo o que ela é, e segundo o que ela quer para o seu filho...

Que eu tenha ferramentas pessoais e profissionais para ela lograr que a amamentação dela funcione, e que também acabe dominando a técnica para carregar o filhote num sling de forma adequada e confortavel...

Que eu faça tudo isso, como doula de puerperio que sou, não faz de mim um "ser de luz" com halo ao redor do corpo, que nunca se revolta e jamais comete erros com os filhos, comigo mesma, ou com os outros. Isso não vinha junto com o diploma.

Se você espera de mim a perfeição, então procure outra, eu não vou responder a essa espectativa. E se espera isso de mim, cuidado... O que espera de você mesma, então?

Elena de Regoyos para MamaÉ
Proibida a reprodução sem autorização

jueves, 4 de abril de 2013

Brinquedos ou realidade? Com que brincam os seus filhos?

Hoje comecei o dia no computador com uma oferta no maravilhoso site de brinquedos naturais Jugar i Jugar. Lembrei que precisava comprar giz de ceras da Stockmar para os meus filhos, e como nesse site também as vendem, entrei. Impossível não perder minutos e minutos mergulhando nesse incrível site de brinquedos de madeira, tecido e outros materiais naturais. Brinquedos baseados nas pedagogias Waldorf, Montessori ou Pickler. Brinquedos simples, porém únicos, especiais. Enfim, eu passo tempo e tempo desejando uns e outros para os meus filhos (ou para mim?), e enchendo o carrinho de compras imaginário com todos eles. Ai... se eu fosse rica!

Todos esses brinquedos são naturais (e lindos!!), é verdade. Não forçam o desenvolvimento natural da criança, senão que acompanham ela da mão no ritmo de cada uma, lhes oferecendo ferramentas, sem hiperestimular e tal e qual.

Mas... peraí! Sentada no chão, desde onde eu estava mergulhando no país das maravilhas do citado site, olhei para a minha filha de um ano, que brincava pela sala, e a observei. Nesse momento ela estava empurrando uma mesinha por toda a sala. Minutos antes estava brincando de entrar e sair do moisês que -também, fora das patas com rodinhas dele, está no chão da sala- ela não usou para dormir quando bebê, mas no qual agora adora entrar e sair, sentar nele, enchê-lo e esvaziá-lo de "brinquedos"... e empurrá-lo pela sala. Ela não consegue sempre entrar e sair dele sozinha, daí pede ajuda, e pratica esse exercício uma e outra vez. Às vezes ela também cai durante o treino.

Observando a minha filha brincar

Me propus, então, fazer um seguimento das principais brincadeiras dela durante o dia, confesso que acreditando já saber o resultado (pois é, quando uma já está na terceira filha às vezes acredita ter o resultado de certas pesquisas sem esperar fazê-las). Até essa hora ela tinha brincado, quando acordou de manhã ao meu lado, de meter o dedo no meu olho, nariz e boca. E depois de rolar na cama numa espécie de "pega pega" preguiçoso comigo, nessa primeira hora depois de acordar.

Daí, depois de tomarmos banho juntas, e dela brincar com os pingos de água que caiam pelo vidro do box e de desenhar com a ponta do dedinho com o sabão da perna dela, ela brincou de colocar uma meia dela que achou pelo chão primeiro na cabeça, para depois já ser no pé. Nossa, ela passou com a meinha um tempão.

Ao longo do dia as brincadeiras dela foram -segundo eu mais ou menos fui anotando- as seguintes:

-Romper em mil pedaços uma casca de cebola (aquela externa, marrom, bem sequinha) que tinha caido no chão enquanto eu cozinhava.

-Passear com um cinto de couro grosso do pai a modo de cachecol, que ela colocava e tiraba, colocava e tirava. E ai de quem tirasse o cinto de couro dela, ou tentasse substituí-lo por uma coisa mais... "adequada".

-Arrancar -tentar- folhinhas das plantas que eu estava molhando, e passar um tempão rasgando-las em pedacinhos igual tinha feito com a casca da cebola.

-Subir a escada de casa em quanto eu não olhava para ela.

-Apertar os botões do controle da TV insistentemente, e escondê-lo Deus sabe onde depois.

-Pegar um lenço de papel -esvaziar o pacotinho inteiro, na verdade- e limpar o nariz de um macaco de pelúcia, que depois carregou no colo por muito tempo enquanto fazia outras coisas.

-Meter o dedinho em um buraquinho da porta, e tirá-lo daí. Meté-lo de novo e tirá-lo mais uma vez. E falar com o buraquinho totalmente entregue, rindo a cada repetição.

-Virar o copo de suco de uva e desenhar no chão com ele (ai aiiiiiiii).

-Subir encima de uma malinha de alumínio onde guardamos fantoches, "pular" nela (sem separar os pés da caixa, por enquanto), e pedir ajuda para descer. En seguida, subir de novo e re-começar a brincadeira.

-Abrir o armário das panelas e tirar algumas dele para colocar e tirar a tampa, e meter coisinhas que ia achando pela cozinha dentro dela -vocês nem imaginam a quantidade de coisas não proprias de cozinha que tem no chão da minha cozinha, como playmobils, pedras...-.

-Meter a mão na minha bolsa e tirar coisas dela, metendo outras insuspeitadas. E depois a mesma coisa na casinha de madeira do irmão mais velho: meter a mão pela janela tirando coisas de dentro, e depois meter outras dentro a travês da mesma janela.

-Empurrar uma garrafa vazia que uma amiga colocava em pé, e rir ao vê-la cair. E de novo a mesma coisa repetidamente.

-Tentar arrancar com o dedinho o milho da espiga, no jantar, levando ele à boca de vez em quando.

-Pegar uma fralda suja e sair "correndo" com ela para eu perseguí-la.

-Na cama, antes de dormir, meter o dedo no ombigo do pai e gargalhar com a agonia dele.

-E muito de me seguir a todas partes, me observar com atenção -até no banheiro, obvio-, pedir colo, se agarrar às minhas pernas, falar e falar coisas geralmente incomprrensíveis, perseguir os irmãos, sentar do lado deles maravilhada, sentar encima de uma bola e levantar muitas vezes seguidas, me chamar, pedir mais colo, apertar botões de todo o que tem botões na casa, tentar subir em tudo o que está no seu alcance e pedir ajuda para descer, abrir gavetas...

Os seus brinquedos favoritos

Mais ou menos foi por aí. Quer dizer, ela usou para brincar todo tipo de objetos, principalmente da casa: prendedores de roupa, utensílios de cozinha, roupas, comida...

Poderia dizer que o principal brinquedo dela somos nós, a mãe, o pai e os irmãos: interagindo, nos perseguindo, nos imitando, ficando no colo... As pessoas. O segundo brinquedo dela é a casa com tudo o que ela tem dentro para uso nela. E por último lugar estariam os brinquedos propriamente ditos, que ela usa também, sim (adora bonecos!!), mas que nem de longe é a primeira nem a segunda opção dela na hora de brincar, e com maior motivo ainda os de bebês.

Voltando aos bonecos... é verdade, sim, ela ama carregar um boneco, mas não "brinca" com ele, senão que o carrega enquanto passeia ou fuça em outras coisas, da mesma forma que eu carrego ela enquanto cozinho ou faço outras coisas :). Retifico... o que esperamos quando falamos "ela não brinca com ele"? Se brincar é imitar para treinar para a vida adulta, ela então brinca e muito com ele, pois faz exatamente o que eu faço com a minha bebê: carregá-la enquanto faço outras coisas.

E dos outros brinquedos que usa, ou pode usar... ela os usa, mas eles são perfeitamente substituiveis por outras coisas. Da mesma forma que metia e tirava a mão da casinha de madeira do irmão (que é brinquedo), também o fez depois com a minha bolsa (que não é brinquedo). E da mesma forma que primeiro colocava em pé e empurrava um playmobil (que é brinquedo) para fazê-lo cair, depois o fez com uma garrafa (que não é brinquedo). Ela não se interesava explícitamente na casinha ou no playmobil, senão em meter e tirar coisas primeiro, e em empurrar um objeto que estava em pé, depois.

A minha conclusão -além de que eu deixo demasiadas coisas pelo chão sem recolher- é que para minha filha, igual que para os meus meninos de 5 e 7 anos, sobram o 90% dos brinquedos que eles tem, e olhem que eles nem tem tantos, e os que tem são na maioria bem "educativos" -esse termo da para outro post-!

E você? Já observou os seus filhos brincando? Com que eles brincam mais? Voês acham que eles seriam menos felizes com, digamos, apenas o 10% dos brinquedos que eles tem?

-Elena de Regoyos para MamaÉ-
Proibida a reprodução sem autorização da autora.
 
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